terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O banco Real e o posto de saúde.

Moro em Pirituba, um bairro periférico na zona oeste da cidade de São Paulo. Como todos os bairros da periferia, é uma região distante dos grandes centros (velho ou novo), com diversos problemas, como: transporte, saneamento básico, educação, saúde etc. As escolas públicas, principalmente estaduais estão em decadência. As particulares provavelmente também. Há vários córregos de esgoto a céu aberto. Pessoas que aglutinam seus barracos em palafitas sobre esses córregos. Pessoas nascem, crescem e morrem por aqui. Voltando um pouco este texto para a questão da saúde, quero apenas destacar um fato que me chamou a atenção. Há muitos anos, em uma das principais e mais antigas rua do bairro, conhecida como rua Pirituba, existe um modesto posto de saúde. Modesto para não dizer medonho. O espaço ocupado pelo posto é o de uma casa antiga, o qual percebe-se que não houve muito planejamento para ser transformada em um local para estes fins.Neste local de atendimento médico público eu já tive experiências trágicas, como por exemplo, quando eu precisei fazer um exame de sangue. O atendimento foi precário; as coletas de sangue eram feitas em salas sem qualquer suporte ou no próprio corredor, do lado de fora. Lembro-me de uma menina que aparentava ter uns dez anos, magra, com cabelos castanhos e cumpridos. Ela sofreu... tinha uns quatro furos e muito sangue em seu braço. Estava desesperada. Mas com certeza não foi a única. Havia muitas pessoas para serem atendidas. No posto existe um limite para atendimento. Dependendo do caso é necessário chegar muito cedo... muito mesmo, para poder pegar a senha. O médico nem olha no rosto das pessoas (pelo menos no meu nem olhou), parece que está fazendo um favor. Também não sei se todos os médicos agem assim. Pagar um convênio médico? Nem pensar. É muito caro. Caro mesmo.
Há pouco tempo, em uma avenida próximo a minha casa teve início a construção de uma agência do banco real. Nessa construção os "pedreiros" trabalharam noite e dia, literalmente, até de madrugada, pois a obra teria que ficar concluída antes do natal de 2008 (provavelmente devido a grande movimentação comercial que existe nesta época do ano).
A agência bancária foi construída rapidamente em um terreno que era um barranco imenso, de muito difícil terraplanagem e que só para esse serviço deve ter sido feito um enorme investimento. Em cerca de três ou quatro meses a agência estava pronta. Linda, moderna, com tudo novinho em folha.. Foi rápido, muito rápido. De madrugada ouvia-se o som dos discos de serra trabalhando, mesmo debaixo de reclamações da vizinhança querendo dormir. Agora está tudo lá; estacionamento, caixas eletrônicos, gramadinho na frente e tudo mais.
Em fim, a questão é: Por quê esta agência bancária ficou pronta em tão pouco tempo e o mencionado posto de saúde permanece com seu aspecto de filme de terror? A quem o sistema capitalista serve? Quando ele funciona?
Além do banco Real já foram construídas outras agências bancárias (Itaú e Bradesco). Não que isto não seja necessário, mas a desigualdade de investimento e interesse é absurda. Por que um local de atendimento médico público, que recebe uma imensa quantidade de pessoas carentes (é necessário chegar bem cedo para retirar a senha de coleta de sangue, por exemplo) esta há tanto tempo degradado, com quase nenhum investimento?

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Oh, trabalho... (Parte I)

Não posso negar, pelo que vi, vivi e senti desde meus 15 anos, idade que eu tinha quando comecei a trabalhar registrado e tudo mais, que nossa sociedade é composta por homens e mulheres que realmente estão dispostos a trabalhar. Realmente precisam trabalhar. Mas trabalhar tanto... para quê?

Ninguém poderá negar que nós, trabalhadores, a grande massa que lota os trens que partem do subúrbio rumo ao centro pela manhã, que se esmagam e se ofendem, trabalhamos muito. Mas tudo isso para ter o que? Pouco, muito pouco. Pouco para a imensa maioria dos trabalhadores e muito para uma parte dos que trabalham, e que na verdade exercem um trabalho, na maioria das vezes, com bem menor intensidade ou desgaste, e pelo menos podem desfrutar de grandes momentos de lazer, os quais nem poderiam ser sonhados por uma parcela enorme de nossa sociedade, pessoas nem tem onde dormir, ou o que comer. Que sofrem em ter de ficar com a pior parte do capital. Ficam com o papel de ter miséria e gerar riquezas.

O trabalho sempre se mostrou necessário. A espécie humana sempre necessitou exercer alguma forma de trabalho; seja caçando animais para obter alimento e vestimenta; seja na coleta de frutos, preparação de fogueiras, longas caminhadas e busca de abrigos; sim, mas, em um momento, em algum momento da história o trabalho passou a ser escravo e, posteriormente, assalariado (porém, em inúmeros aspectos, não há qualquer diferença entre as duas formas). Eu vejo um mundo onde a imensa maioria das pessoas está infeliz em seu trabalho, e pior, recebendo muito pouco para a função que exerce, e pela jornada de trabalho, muito pouco mesmo. Eu não sei ... depois de um tempo comecei a me questionar bastante o motivo de tanto trabalho por tamanho número de pessoas. Quanta mão de obra! Para onde vai tanta força de trabalho concentrada em nossos dias de hoje? Nas empresas de tele marketing, nas grandes redes de lojas, shoppings, no trabalho informal, os trabalhadores terceirizados das empresas de limpeza dos espaços, sejam eles públicos ou privados, sem falar nos trabalhadores do eterno crescimento do concreto e da modernização e estética urbana, ou seja os chamados "pedreiros", ou "peões", as secretárias, os vendedores, professores, bom, etc.

É necessário, porém, que vejamos para além do sistema de trabalho, e nos atentemos para o mundo do consumo, o mundo onde também estamos inseridos e cada vez mais obrigados a consumir e a ter, a pensarmos cada vez mais em nossa ascensão material, social, a sermos individualistas, invejosos, e também nos deixamos levar pela propaganda, que exige cada vez mais produção, mais trabalho, ligando desta forma o mundo do trabalho ao mundo do consumo, talvez evidenciando o quanto todo nosso processo de vida está ligado ao trabalho assalariado, ao dinheiro. O quão pouco estamos acostumados a momentos de folga e de lazer, a poder nos divertir.


Continua...